ninfa e fauno
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Almanaque de Bichos que dão em Gente

INDEX

SUMÁRIO

SINTOMAS

ALHO

LARVA

ATUALIZAÇÕES

 

PESQUISA ESCOLAR

1: VERMES? MELHOR NÃO TÊ-LOS!

2: A VIDA COMENDO SOLTA

3: NÓS, ELES, SINTOMAS E REAÇÕES

4: ONDE É A FESTA E QUEM FAZ

5: ANEMIA, INFECÇÃO E INFLAMAÇÃO

6: MAS E A IMUNIDADE, NADA?

7: BACTÉRIAS

8: FUNGOS

9: VÍRUS, DENGUE E OUTRAS FEBRES

10: RICKÉTTSIAS

11: PRÍONS

12: VERMES: ASQUELMINTOS NEMATÓDEOS

13: VERMES: PLATELMINTOS TREMATÓDEOS

14: VERMES: PLATELMINTOS CESTÓDEOS

15: PROTOZOÁRIOS

 

 

CAPÍTULO 1: VERMES? MELHOR NÃO TÊ-LOS!

Além de contrariarem profundamente nosso ideal de limpeza, o fato é que vermes pintam e bordam dentro do hospedeiro. Andam para cima e para baixo como se estivessem em casa, e quando querem se fixar usam ganchos, ventosas e dentes para se agarrar em nós. Machucam e destroem tecidos, invadem a corrente sanguínea e viajam pelo corpo inteiro, produzem toxinas ruins para nós, um horror. Alguns têm boca, aparelho digestivo e ânus; outros absorvem todos os nutrientes pela própria superfície do corpo, feito esponjas. Competem conosco pela comida, já que precisam das mesmas coisas para viver: proteínas, vitaminas, minerais, gordura – e glicose, muita glicose, que armazenam em forma de glicogênio e vão gastando em sua exaustiva vida de parasitas.

Causam não poucos danos, assim como as pragas de um jardim. Do mesmo jeito que uma planta cria fungos ou é comida por uma lagarta ou abriga centenas de ovinhos do que quer que seja e fica doente e morre, nossos tecidos externos e internos podem abrigar um sem-fim de parasitas. E não é qualquer sem-fim de parasitas não, é uma comunidade muito sofisticada que passa por vários estágios difíceis antes de conseguir se estabelecer direito. Como não tem proteção corporal contra agressões externas, precisa de um lugar quentinho e úmido para viver – de preferência com comida, e melhor: mastigada, engolida e digerida, fast-food de parasitas.

Agora, uma notícia boa e outra ruim. A ruim é que, do milhão e meio de espécies vivas identificadas até agora, mais de 2/3 são parasitas. A boa é que nenhum parasita tem interesse em matar o hospedeiro, porque estaria inviabilizando a própria existência.

Os vermes andavam meio sumidos,
recentemente voltou-se a falar deles.

Raul Barcellos, médico carioca que desenvolveu uma dieta contra o câncer e as alergias, acredita firmemente que vermes são os grandes causadores de alergias e câncer.

Hulda Clark, cientista canadense cheia de títulos, assegura que 100% dos portadores de câncer têm uma baratinha no fígado, a Fasciolopsis buski.

Na Internet proliferam os sites sobre parasitas, a maioria gerada por universidades norte-americanas e japonesas. Em Parasites, Parasites and Parasites from Japan, os médicos elegem o parasita do mês; é lá que está a inacreditável foto de uma larva de Spirometra saindo viva do seio de uma mulher que se julgava ter câncer. Em Wellness Web, Michael Briamonte, médico nutrólogo em Nova York, afirma que vários pacientes ficaram curados de diabetes depois de uma vermifugação completa.

A National Geographic Magazine publica 18 páginas sobre parasitas na edição de outubro/97. Comenta que cada vez mais cientistas vêem esses organismos como criaturas complexas e sutis, admiráveis à sua maneira e muito mais poderosas do que se poderia imaginar. "Eles inspiram em nós um saudável respeito pelo poder das pequenas coisas", comenta Daniel Brooks, zoólogo da Universidade de Toronto.

Quem de nós sabe alguma coisa sobre esses inquilinos que jamais pedem licença? Quase ninguém. A maioria, como aquela senhora, acha que o assunto já foi resolvido há muito tempo, que verme é coisa de cachorro, de criança, de roça.

Não deixa de ter razão; certos vermes atacam mais quem anda descalço, toma banho de rio e tem pouca higiene. Mas mesmo a mais cosmopolita das cidades modernas possui um vasto repertório de verminoses, afetando no mínimo 30% de qualquer população do mundo e pegando adultos assim como crianças e animais. Por uma razão muito simples: a transmissão geralmente se dá através dos ovos dos parasitas, que são minúsculos – e muitos, milhares, milhões.

Por exemplo: você vai num restaurante de luxo e resolve lavar as mãos antes de comer, cumprindo um preceito universal de higiene. Lavou, secou naquela maquininha de ar quente, abriu a porta do banheiro para voltar ao salão e já está carregando nos dedos um ou mais ovinhos que alguém deixou na maçaneta. O rico pãozinho com patê e trufas que você come em seguida já leva para dentro quem sabe uma lombriguinha, quem sabe uma solitária...

E a verdade verdadeira é que, mesmo esterilizando tudo em volta, um parasita sempre vai dar gargalhadinhas. Pela simples razão de que ninguém pode se esterilizar por dentro nem impedir a vida de seguir seu curso.

Mas não são só vermes que parasitam seres humanos:
protozoários, bactérias, fungos, vírus, reckéttsias e príons
também vivem às nossas custas.

Protozoários são uma coleção de organismos muito diferentes entre si, e não um grupo biológico. O que os classifica juntos é o fato de serem dotados de uma célula só que faz tudo – come, excreta, respira, se move e se reproduz sozinha. Entre eles estão parasitas intestinais como amebas e giárdias, abundantes em todos os lugares do mundo. Pertencem ao reino dos protistas, junto com as algas (não todas) e o limo.

Vermes, ou melhor, helmintos, são animais de todos os tipos e tamanhos. Podem viver livremente, como as minhocas, ou parasitar vegetais e animais. Podem ser redondos como as lombrigas, chatos como as fascíolas, minúsculos como os rotíferos ou enormes como as tênias. Alguns têm sistemas digestivo e circulatório, outros não têm cavidades nem orifícios, uns se reproduzem sozinhos, outros já gostam de sexo, uns vivem muito, outros pouco, enfim: monotonia, jamais.

Bactérias já não são animais, mas moneras, organismos unicelulares primitivos, simples e flexíveis, geralmente parasitas, que crescem e se reproduzem muito rapidamente. Estão na Terra há 3,5 bilhões de anos e parecem ser as formas iniciais da vida, a partir das quais tudo se desenvolveu. Pasme: diz a Encyclopaedia Britannica que em qualquer corpo humano há mais bactérias do que células humanas.

Com necessidades nutricionais refinadas, bactérias só conseguem viver parasitando animais, plantas ou ambientes ricos como o leite, e geralmente colaboram com nossos processos nutricionais e digestivos. Acontece que, em certas situações, uma bactéria amiga se torna agressiva. A Escherichia coli, por exemplo, mora no intestino e fabrica as preciosas vitaminas K e D; mas, se entra acidentalmente no sangue, pode colonizar o corpo inteiro e levar à morte.

Fungos são criaturas um pouco mais estranhas, que vão do bolorzinho do pão aos mais raros cogumelos. Sua nutrição é totalmente obtida de matéria orgânica, viva ou morta, com preferência declarada por carboidratos, isto é, açúcares. Há fungos de vida livre e fungos parasitários. Os fermentos do pão, da cerveja, do vinho e do iogurte são fungos; a monília e a micose, também. Existem até mesmo fungos que armam arapucas para vermes. Estimulados por um sinal químico da presença da caça, secretam uma substância grudenta em toda a superfície de seus corpinhos. Verme encostou ali, ficou – e imediatamente o fungo cria uma tromba que penetra nas carnes moles do verme, ramifica lá dentro, mata o infeliz e fica mamando seu citoplasma. Mudemos de assunto.

Vírus continuam sendo os mais incompreensíveis e incontroláveis organismos infectantes; ainda se sabe muito pouco sobre sua estrutura e replicação. São simplesmente um ácido nucléico, DNA ou RNA, com uma capinha de proteína. Parasitas compulsórios, pois não têm as enzimas necessárias para produzir componentes celulares, os vírus se apossam da estrutura das células para se reproduzir, destruindo-as ou não.

Rickéttsias são algo minúsculo, entre a menor bactéria e o maior vírus, que se transmite pela mordida do carrapato. Infectam humanos e animais causando febres importantes, às vezes mortíferas.

E, finalmente, temos também os príons, a última novidade em matéria de agente infeccioso. Esses não têm núcleo, ou seja, não têm a molécula que contém a informação genética, como é normal em todas as células e vírus; são apenas proteínas infectantes, responsáveis pelo mal-da-vaca-louca na vaca e nas pessoas.

Essa grande comunidade que nos habita só não fica mais à vontade porque nosso organismo também precisa sobreviver,
portanto se defende.

Um intrincado sistema bioquímico mantém o que chamamos de imunidade natural. Ela está presente em todos os fluidos do corpo e em todos os tecidos, sob diversas formas, de modo que pode responder rapidamente a alterações no equilíbrio entre nós e os parasitas, e é o que nos mantém saudáveis.

Esse sistema também pode atacar e destruir ovos e larvas. Mas às vezes só consegue prendê-los dentro de cápsulas que se alojam em algum tecido. Aí, de duas, uma: ou a larva continua viva e crescendo, ou morre lá dentro e acaba calcificando ou virando coisa pior, a menos que seja absorvida pelas células fagócitas. Na página 129 e em http://ascaris.med.tmd.ac.jp/Images/9605/9605Fig1.gif está a incrível foto de uma jovem Spirometra erinaceieuropaei, parasita de gatos e cachorros, saindo viva do seio de uma mulher de 46 anos que foi operada porque tinha um caroço crescendo. Quando cortaram o cisto, a larva de uns 8 ou 9 centímetros saiu correndo.

Um consolo: bactérias, fungos e vírus também parasitam os vermes, assim como pulgas e carrapatos parasitam os cachorros e gatos da casa.

Há parasitas onde a gente menos espera. Nos cupins, por exemplo. Você sabia que alguns deles só comem madeira porque têm, dentro de sua minúscula barriga, protozoários parasitas que digerem a celulose? Sim, e esse protozoário é notável pela rapidez com que se dirige aos pedacinhos de madeira mastigados por seu hospedeiro. Pois bem: sabe quem acelera o movimento? Bactérias espiroquetas que se agarram nele feito perninhas. Já não é mais um inseto, é um condomínio completo...

Na escala biológica o modelinho parasita-hospedeiro
se reproduz na proporção de dois para um, e no final nós humanos parasitamos a Terra, sem a qual não poderíamos viver.

E então tudo bom, tudo lindo, tudo é perfeito na natureza e não há nada a fazer? Bem...

Há dois milhões de anos enfrentamos os mesmos desafios para sobreviver: comida, abrigo, saúde. Antes da injeção de penicilina (que, aliás, é um fungo que destrói bactérias), morria-se de qualquer infecção. A higiene, a medicina, a química e a tecnologia avançaram muito, mas doenças infecciosas e parasitárias continuam sendo a maior causa de morte no planeta. E sempre que se tem uma doença dessas é porque o organismo foi tomado por uma multiplicação de criaturas, vindas de fora ou presentes em nós há muito tempo, que encontraram condições de se desenvolver além do razoável e acabam nos ameaçando a vida.

O desafio, portanto, continua.

Impossível evitar a aquisição de micróbios, porque eles estão em todos os lugares e nós somos seu alvo natural. Impossível combatê-los radicalmente, porque estaríamos nos intoxicando em níveis insuportáveis. Nosso conceito de saúde é que precisa ser completamente ecológico. Aceitar a idéia de que somos hospedeiros potenciais e habituais das coisas mais incômodas, agressivas, esquisitas e irritantes, e brigar todos os dias pela parcela diminuta de bem-estar que nos dá a vitória sobre elas. Ainda que não cheguem ao ponto de causar doenças graves, o desgaste gerado pelo conjunto de sintomas é um tremendo redutor da qualidade de vida.

 

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